CRISTINA ALÉM DO ESPELHO
Vicente Jorge Silva, jornalista, fundador e primeiro director do Público

"Precisamos de pedir um desenho à Cristina", era uma das frases clássicas que se ouviam na redacção do "Público" quando se precisava de contrapor uma outra dimensão à matéria jornalística. Um desenho da Cristina era um luxo, o nosso luxo, uma espécie de caviar com champanhe para apurar o paladar do leitor e fazê-lo render-se às armas com que, há dez anos, o "Público" conquistava um lugar novo na imprensa diária portuguesa. Nessa altura, os computadores eram ainda objectos quase mágicos, uma caixinha de surpresas que nós queríamos explorar para além do território excitante das proezas técnicas. Queríamos – e a Cristina queria – aproveitar esse novo arsenal de prodígios não apenas para fazermos um jornal mais "up to date" do ponto de vista tecnológico, mais rápido, solto e eficaz, mas também mais imaginativo, mais criativo, mais surpreendente e – porque não? – mais divertido. O lado lúdico do jornalismo encontrava uma expressão verdadeiramente festiva nos bonecos da Cristina, ela era a nossa Alice no país das maravilhas, a que nos permitia atravessar o espelho dos textos, das fotografias e dos "cartoons" tradicionais e passar para essa tal dimensão difícil de definir mas que, talvez por isso, eu me atreveria a envolver numa palavra: poética. É de facto de uma dimensão poética do jornalismo que podemos falar quando vemos um desenho da Cristina. Ela não se limita a ilustrar, a comentar graficamente um texto ou um título, a fazer uma interpretação mais ou menos literal ou irónica de acontecimentos, situações, notícias, artigos. Cristina acrescenta-lhes sempre qualquer coisa que ultrapassa os códigos redutores e imediatistas que associamos geralmente ao trabalho jornalístico. Não só pela extrema elegância geométrica do traço, mas pela subtileza do sortilégio que introduz num pormenor, nem sempre perceptível a uma primeira visão. Como temos o olhar poluído e brutalizado pela banalização crescente das imagens em todos os domínios da imprensa e do audiovisual, a pureza e a fantasia quase infantil dos bonecos da Cristina, o golpe de asa das suas "trouvailles", deixam-nos não poucas vezes confundidos e desarmados. (…)
Observe-se a pura graça subversiva, o pequeno detalhe encantatório que lava o nosso olhar dessa poluição da vulgaridade que todos os dias nos assalta nas televisões e nos jornais. A oportunidade de podermos ver expostos tantos desenhos de Cristina, para além da sua relação com a circunstância jornalística, é uma verdadeira festa. (…)

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